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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A cientista que usa sushi para explicar o funcionamento do cérebro

No Instagram, pesquisadora americana usa técnicas de arte com comida japonesa para explicar conceitos complexos a estudantes.

A cientista que usa sushi para explicar o funcionamento do cérebro
(Foto: Instagram)

  Sabe aquele belo pedaço de salmão cru ali? É parte do tecido cerebral. Já aquela peça de tekka maki de atum é uma papila gustativa, saliência na língua que reconhece o sabor dos alimentos.
As iguarias educativas são a especialidade da cientista Janelle Letzen, PhD em psicologia clínica e pós-doutoranda na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Ela pesquisa a relação de depressão e ansiedade com a dor crônica e, para relaxar nos fins de semana, explica o funcionamento das estruturas do cérebro no Instagram, usando sushi.
"Eu queria fazer algo que tornasse esses conceitos mais fáceis de entender do que os livros. Algo que pudesse ajudar os estudantes, como eu, a se motivarem mais. Aí tive a ideia de usar as mídias sociais", disse à BBC News Brasil, em entrevista por telefone.
O sushi, por sua vez, apareceu inicialmente como um hobby, parte de uma resolução de ano-novo de aprender uma atividade nova todos os anos. A brincadeira, no entanto, foi bem mais longe do que ela esperava. Em poucas semanas, seu perfil @the_sushi_scientist já tinha milhares de seguidores.
"Acho que o mais surpreendente foi que tantas pessoas achassem isso interessante. Eu pensava que só meus amigos e minha família iriam acompanhar, mas professores começaram a entrar em contato pedindo para usar nas suas aulas", relembra.
"Também descobri uma rede enorme de outros cientistas – muitos alunos de graduação ou de pós-graduação – que também estão usando as redes sociais para explicar as pesquisas que fazem no dia a dia."

COLABORAÇÃO COM OUTROS PESQUISADORES

Ao descobrir o universo da ciência educativa no Instagram, Janelle passou a colaborar com outros cientistas. Assim nasceram alguns de seus "pratos" mais complexos, sobre ondas gravitacionais, células-tronco e paleontologia, por exemplo.
"Em geral, os cientistas parceiros me dão uma ideia do tópico no qual estão interessados, mandam um vídeo ou ilustrações que podem ajudar e eu faço um sushi das ideias deles", conta.
"Nesse processo, acabei descobrindo como usar a técnica do stop motion para fazer um vídeo sobre ondas gravitacionais. Foi muito difícil, porque eu precisava ter uma peça de sushi girando em torno do próprio eixo e grãos de arroz se movendo em outra direção."
A depender da complexidade da imagem que escolhe fazer, a pesquisadora demora entre meia hora e uma hora em cada. Isso sem contar o planejamento, que ela faz em cadernos de desenho.
"O principal exercício é ter que desenhar o esquema antes – meus desenhos são horríveis – e visualizar mentalmente aquilo em 3D. Só aí consigo pensar em quais são os melhores ingredientes para usar."

 SUSHI DEMAIS?

Janelle aprendeu a fazer sushi lendo a respeito na internet e assistindo a vídeos no YouTube, quando começou a criar infográficos científicos com eles, os amigos se tornaram sua principal cobaia.
"Nada do que aparece no Instagram é feito só para as fotos. Tenho que tomar bastante cuidado com a manipulação, porque tudo ali é comestível. Não quero jogar fora, então sempre acabo chamando as pessoas para comer depois."
Para além da brincadeira, ela diz que a experiência lhe rendeu pedidos para reunir o conteúdo educativo em um site, onde não há limite para o tamanho dos textos científicos e referências que explicam cada imagem.
"O nosso currículo universitário, especialmente nos primeiros anos da graduação, afasta muitos alunos, que sentem que não conseguem lidar com a complexidade dos temas. Acho que quanto mais divertidas e claras pudermos tornar as coisas, melhor", afirma.
Janelle ainda não recebeu convites, no entanto, para cozinhar profissionalmente. E acha que isso não vai acontecer.
"A verdade é que é muito difícil trabalhar com o arroz de sushi, que fica muito grudento. Eu tento ser o mais organizada possível, mas às vezes não dá."
Por: Jornal Metro

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